Veículos de projeto do DNIT: as nove classes, a Tabela 25 e o gabarito de giro

Pelo menos dois manuais do DNIT trazem veículos de projeto, e este texto trata desses dois: o Manual de Projeto de Interseções (IPR-718, 2005), com cinco classes, e o Manual de Projeto Geométrico de Travessias Urbanas (IPR-740, 2010), com nove. A Tabela 25 do IPR-740 (p. 179) dá, para cada classe, largura, comprimento e três raios diferentes. Entre-eixos e balanços não estão na Tabela 25: o manual os representa, classe por classe, nos desenhos das Figuras 46 a 60; para o CO, também dá em texto o entre-eixos e o balanço dianteiro (pp. 267–268).
O que é um veículo de projeto
O glossário do IPR-740 (p. 38) define:
"Veículo de projeto – veículo teórico de certa categoria, cujas características físicas e operacionais representam uma envoltória das características da maioria dos veículos existentes nessa categoria."
Não é um modelo que você compra, e sim um veículo teórico que cobre a maior parte da sua categoria. Projetar para ele significa, diz o manual (p. 184), que os veículos iguais ou menores terão condições operacionais iguais ou mais favoráveis; os maiores não ficam impedidos de passar, mas podem operar em condições piores que as mínimas previstas.
IPR-718 e IPR-740: cinco classes ou nove
O IPR-718 (2ª edição, aprovada pela Diretoria Colegiada do DNIT em 19/12/2005) trabalha com VP, CO, O, SR (cavalo mecânico com semirreboque) e RE (combinação com reboque). Sua Tabela 6 (p. 80) imprime largura, comprimento e dois raios.
O IPR-740, aprovado em 30/08/2010, tem nove classes. Em VP, CO e O, os valores que o IPR-718 imprime coincidem com os do IPR-740. As diferenças estão no OR, o ônibus rodoviário, que no IPR-718 fazia parte do O, e nas combinações de veículos de carga (CVC): para elas o IPR-740 adotou as composições da Portaria nº 86/2006 do DENATRAN, porque "os veículos-tipo CVC considerados pela AASHTO diferem dos que transitam no Brasil".
Os dois estão na coleção de manuais vigentes do DNIT, e nenhum dos textos lidos para este artigo diz que um substitui o outro. O IPR-718 continua sendo citado: o procedimento PSR-E 03/24-00 do DER/PR, aprovado em 31/10/2024, descreve os seus cinco tipos. Nenhum dos dois é lei; são manuais técnicos do órgão federal de rodovias.
As nove classes do IPR-740
- VP: veículos leves, do automóvel à pick-up.
- CO: caminhões e ônibus convencionais, rígidos, de dois eixos.
- O: rígidos maiores, como o ônibus urbano longo e o trucão.
- OR: ônibus rodoviário e de turismo.
- CA: a Carreta, cavalo mecânico com um semirreboque de 3 eixos.
- CG: o Cegonheiro, cavalo mecânico com um semirreboque de 2 eixos.
- BT7: bitrem de 7 eixos, 19,80 m, com dois semirreboques.
- BT9: bitrem de 9 eixos, 25 m; abrange o rodotrem de 25 m, com dolly.
- BTL: bitrem longo ou rodotrem de 30 m.
Pelo art. 18 da Resolução CONTRAN nº 882/2021, CVC com mais de duas unidades, incluída a tratora, com PBTC acima de 57 t ou comprimento acima de 19,80 m só circulam com Autorização Especial de Trânsito (AET). Isso alcança o BT9 e o BTL.
Tabela 25: dimensões e raios
Valores em metros, como impressos no manual:
| Classe | Largura total | Comprimento total | Raio mín. da roda externa dianteira | Raio de giro do eixo dianteiro (RED) | Raio mín. da roda interna traseira |
|---|---|---|---|---|---|
| VP | 2,1 | 5,8 | 7,3 | 6,4 | 4,7 |
| CO | 2,6 | 9,1 | 12,8 | 11,5 | 8,7 |
| O | 2,6 | 12,2 | 12,8 | 11,5 | 7,1 |
| OR | 2,6 | 14,0 | 13,8 | 12,5 | 7,7 |
| CA | 2,6 | 18,6 | 13,7 | 12,5 | 6,1 |
| BT7 | 2,6 | 19,8 | 13,7 | 12,5 | 6,8 |
| CG | 2,6 | 22,4 | 13,7 | 12,5 | 1,6 |
| BT9 | 2,6 | 25,0 | 14,8 | 13,6 | 4,5 |
| BTL | 2,6 | 30,0 | 16,6 | 15,4 | 3,9 |
Fonte: DNIT, Publicação IPR-740, Tabela 25 "Principais dimensões básicas dos veículos de projeto (m)", p. 179. Reprodução permitida desde que citado o DNIT como fonte.
Três raios, três pontos do veículo
- Raio mínimo da roda externa dianteira. É o raio mínimo de giro como o IPR-740 o apresenta, seguindo a AASHTO: a trajetória da roda externa dianteira no giro mais fechado, a baixa velocidade, em geral nunca acima de 15 km/h (§5.1.3, p. 174). Na p. 180 o manual acrescenta que, para projeto, é útil conhecer a trajetória da face externa do pneu dianteiro externo e incluir essa linha nos gabaritos. A NT 187-A/95 da CET-SP também mede o raio na roda frontal externa.
- Raio de giro do eixo dianteiro (RED). A curva do centro do eixo dianteiro, a partir da qual o manual constrói a trajetória. Não é o raio de nenhuma borda do veículo.
- Raio mínimo da roda interna traseira. Nas classes rígidas (VP, CO, O, OR), a roda traseira interna do próprio veículo. Nas articuladas (CA, BT7, CG, BT9, BTL), a da última unidade rebocada.
Nenhum dos três é o canto dianteiro da carroceria, que passa por fora da roda. Quando o número vem da ficha de um fabricante, confira em que ponto foi medido; é o assunto do texto sobre raio de giro de caminhão.
Varredura e arraste, nas palavras do DNIT
Na p. 179 o IPR-740 define o arraste: "a diferença radial entre a trajetória do centro do eixo dianteiro e a trajetória do centro do eixo traseiro", estudado a baixa velocidade (até 15 km/h). Na p. 180, a área ocupada na curva:
"procede-se à delimitação da Varredura (swept path), área coberta pela passagem do veículo em seu deslocamento, situada entre as trajetórias do ponto externo do balanço dianteiro e da face do pneu traseiro do lado interno da curva."
Para a roda traseira interna o manual usa a curva tractrix, na forma descrita por Garlick, Kanga e Miller (ITE, 1993), e posiciona a curva verdadeira na relação 40-60 entre duas curvas-limite do método gráfico, que ele chama de “envoltórias”: não são a área de varredura. Para veículos de várias unidades, a p. 183 fixa a borda interna:
"Considerando que a curva tractrix é descrita pelo centro do eixo traseiro da última unidade rebocada, o extremo interno do eixo se situa à distância de meio eixo traseiro, medido entre as faces externas dos pneus."
No modelo do PathSweeper, a borda interna da área de varredura é dada pela roda traseira interna, na altura do eixo, e não pelo canto traseiro da carroceria.
O que a Tabela 25 não traz
A Tabela 25 não traz entre-eixos, balanços, bitola nem posição do pino-rei, embora a p. 180 os liste entre os parâmetros da trajetória de giro. O manual os representa nos desenhos: "Os gabaritos, as dimensões e os menores valores de giro dos veículos de projeto estão graficamente representados nas Figuras 46 a 60" (p. 183). No PDF oficial essas figuras são imagens. Para o CO, a seção de superlargura também dá dois desses valores em texto: "Para o Veículo de Projeto CO, adota-se E = 6,10m" (E é a distância entre eixos, p. 267) e "Para o Veículo de Projeto CO, adota-se BD = 1,20m" (BD é o balanço dianteiro, p. 268). Para as demais classes, leia as cotas na figura correspondente: 46 (VP), 47 (CO), 48 (O), 49 e 50 (OR), 51 e 52 (CA), 53 e 54 (BT7), 55 e 56 (CG), 57 e 58 (BT9), 59 e 60 (BTL).
Uma nota de vocabulário: gabarito de giro é o termo da CET-SP, que o usa no título da NT 187-A para gabaritos da AASHTO; a Prefeitura de São Paulo escreve gabaritos de raios de giro. O DNIT fala em gabaritos dos veículos de projeto e em gabarito de conversão. Para definir o raio de concordância mínimo de uma esquina, o manual da Prefeitura de São Paulo considera imprescindível usar gabaritos de raios de giro, impressos, digitais ou por meio de software de raio de giro.
Qual veículo de projeto adotar
O §5.1.7 (pp. 184–186) orienta, com a modalidade do próprio manual:
- uso primordialmente por veículos de passeio, inclusive parques de estacionamento: "frequentemente", o VP;
- rodovias brasileiras: "em princípio", o CO;
- principais áreas urbanas: verificar a conveniência do O;
- carretas, vanderléias e bitrens de até 19,80 m: considerar CA e BT7;
- rotas de cegonheiros: verificar o CG;
- CVC que dependem de autorização especial: considerar o BTL; se é certo que não passarão de 25 m, "torna-se recomendável" o BT9.
Para a área de manobra de um estacionamento, o §5.1.7 aponta, "frequentemente", o VP; as regras de vagas e faixas estão no texto dedicado ao tema.
Limites legais: o manual de 2010 e a Resolução 882/2021
O IPR-740 (§5.1.4) apoia os limites legais nas Resoluções CONTRAN nº 210 e 211/2006 e 305/2009. As duas primeiras foram revogadas pela Resolução CONTRAN nº 882/2021, em vigor desde 3 de janeiro de 2022. Pelo art. 4º dela, para veículos que não precisam de AET ou AE, a largura máxima é de 2,60 m, a altura de 4,40 m, o comprimento de 14,00 m para não articulados e de 19,80 m para ônibus articulados, caminhão ou ônibus com reboque e articulados com mais de duas unidades. Para caminhão-trator com semirreboque há dois textos: 18,60 m na redação de 2021 e 19,30 m na Deliberação CONTRAN nº 270/2023, editada ad referendum do Colegiado.
Como levar um veículo de projeto do DNIT para a sua planta
O caso típico: um CO precisa entrar em um lote a partir de uma rua estreita.
- Envie a planta (imagem ou PDF) e calibre a escala com uma distância conhecida.
- Escolha o veículo. Sem cadastro há quatro veículos padrão genéricos (carro, van de entrega, caminhão de dois eixos e ônibus), que não são veículos de projeto oficiais. A biblioteca do PathSweeper não traz os veículos de projeto do DNIT: você digita as medidas do manual no editor de veículos personalizados. Criar e salvar um veículo personalizado é gratuito (com uma conta); usá-lo em um projeto exige o Pass Projeto desse projeto ou o Pass Anual.
- Digite a Tabela 25 e complete com a figura. Para o CO: largura 2,6 m e comprimento 9,1 m (Tabela 25), entre-eixos de 6,10 m e balanço dianteiro de 1,20 m (seção de superlargura, pp. 267–268); o balanço traseiro o editor calcula. Nas outras classes, entre-eixos e balanço dianteiro são lidos na figura da classe. VP, CO, O e OR entram como veículo rígido; CA e CG como cavalo mecânico com semirreboque. Para BT7, BT9 e BTL o editor aceita até três unidades rebocadas atrás do cavalo mecânico; o dolly do rodotrem, porém, não é modelado como unidade própria. Compare a varredura resultante com o gabarito da figura antes de usá-la.
- Informe um único raio. Como o editor não tem campo de raio entre meios-fios, o raio mínimo da roda externa dianteira entra dobrado, como diâmetro de giro entre meios-fios: para o CO, 2 × 12,8 = 25,6 m. O RED não entra em lugar nenhum. Se preferir partir do raio mínimo da roda interna traseira, ele entra no lugar do externo, na opção de raio interno, e só nas classes rígidas; nas articuladas ele é da última unidade rebocada, e essa opção se refere à roda traseira da unidade tratora. Um raio de ficha que não diz onde foi medido entra dobrado, como diâmetro de giro sem especificação, tratado como entre meios-fios, que é a leitura prudente: ler como entre paredes um valor medido entre meios-fios faz o veículo modelado girar mais fechado do que o real.
- Trace a trajetória, para frente ou em ré. A área de varredura aparece em tempo real; a folga que você define é sua, não a do manual.
- Exporte: PNG e JPEG são gratuitos; DXF e DWG vêm com o Pass Projeto ou o Pass Anual. Se você está escolhendo ferramenta, veja a comparação entre PathSweeper e AutoTURN Online.
Erros frequentes
- Digitar o RED como raio do veículo. Ele descreve o centro do eixo dianteiro, não uma borda.
- Tomar o raio interno de uma classe articulada como o do cavalo. Ele é da última unidade rebocada.
- Citar os limites legais do próprio manual. As Resoluções 210 e 211/2006 foram revogadas.
- Inventar entre-eixos e balanços. A Tabela 25 não os traz; para o CO, use os valores em texto das pp. 267–268; para as demais classes, leia as cotas na figura da classe (Figuras 46 a 60).
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